qua. fev 28th, 2024
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Vanessa Rodrigues

Professora e Psicanalista

Há algum tempo atrás, em um País muito branco – na verdade nem tão branco assim… era branco, mas não chegava a ser branquíssimo – morava o Príncipe Patriarcado. Lá já vivia cercado por todo o luxo que lhe achava devido. Mesmo sem ter muito espaço para plantar e colher, pouco banho e muitos pernilongos, se sentia pleno em seu pequeno poder… que não era tão pequeno assim… Ora!  Ele era o Patriarcado… Mais respeito!

 

Cansado de estar ali, como filho da Rainha Dominação e do Rei Destruição, pensou que talvez fosse o momento de se casar. Era necessário que propagasse seus domínios. Aumentasse suas posses. Elevasse seu poder… Em dado momento, o que parecia seu, configurava-se pouco: simples e sem vida. Mas quem se atreveria a desposá-lo? Sua fama de poderoso e implacável já tinha percorrido por todo o Reino. E nenhum ser, minimamente disposto de poder de raciocínio, seria capaz de aceitar essa empreitada. Nem mesmo a ideia do “poderio que poderia” ser concebido a tal companheira, era o bastante para que alguém concordasse com essa união.

 

O Príncipe Patriarcado era mimado. Sua mãe, a Rainha Dominação, lhe dava tudo o que queria: Toda a Terra, todo o Riso, toda a Vontade, todo o Desejo… Tudo que a Dominação conseguia, era do Patriarcado.  Mas não conseguia lhe dar uma companheira. Foi então que a Rainha resolveu ter com o Rei Destruição. Era necessário que eles tivessem uma ideia de como conseguir alguém para esse menino (Ney), tão solitário. Inicialmente pensaram em promover o encontro com uma prima distante da Rainha, a Princesa Soberania. Mas logo desistiram, pois a Rainha Dominação conhecia bem como era difícil convencer a Soberania a se curvar ao Patriarcado. O Rei Destruição, sugeriu sua Irmã mais nova, a Princesa Derrota, mas logo desistiu por considerá-la pouco edificante, sem contar os laços consanguíneos e muito próximos ao Príncipe Patriarcado. Eis que surge uma ideia esplendorosa. Digna de nobres daquela estirpe.

 

Era necessário revisitar alguns conceitos, ora essa! Porque não pensaram nisso antes? É claro, a irmã mais nova da Princesa Servidão, a Escravidão. Ela ainda jovem, pode não perceber que será submetida. Mas havia mais uma questão: ela poderia não concordar. Apesar de já existir, precisava vir vestida sob outros trajes. Foi então que chamaram uma modista da corte… que estava em alta: Mme. Desumanização para criar os trajes da noiva do Patriarcado. E lá… desse país muito branco, saíram em busca da Escravidão. Mas não é uma qualquer que se chame Escravidão. Mas sim “A” Princesa Escravidão que vestiria os trajes de Madame

Desumanização – mesmo que a força – para que fosse possível o matrimônio.

 

Do outro lado do planeta encontraram-na pequena, mal nutrida e sem forças. Foi fácil vesti-la com as roupas da Madame Desumanização e trancafiá-la, levando-a a seu destino. Indócil, o Príncipe Patriarcado esperava com seu poder em riste para possuí-la. Dela tiraria forças para a continuidade da sua prole. Quando o navio aportou, lá estava ela, prostrada, cansada e sem forças. Sua boca estava amordaçada. O Príncipe não era fluente em sua língua. Apenas levantou seu vestido e sem a menor roga a penetrou profundamente. Gozou. Sorriu!  Dominação – a Rainha – e o Rei Destruição se regozijaram. Finalmente seu filho estava completo. Eles poderiam seguir com seu reino pleno.

 

Nove meses depois a Escravidão deu a luz à Tirania. Cada vez mais envolta pelos mantos da Desumanização, A Princesa Escravidão não tinha forças. Apenas servia ao Patriarcado, aumentando sua força e poder. Mas o Príncipe queria mais. Queria uma filha que reluzisse e fosse amada por todos. O protótipo da beleza não existente. O símbolo da pureza, do imaculado. A que tudo sabe. O ponto neutro. A própria perfeição. Era isso. Tudo que o Príncipe Patriarcado quer, ele tem! A Princesa Escravidão era seu objeto de prazer e ela lhe daria uma filha assim. Para ficar forte quando prenhe, ela se encheu de leite. Tomava muito e banhava com ele. Numa noite de tempestade, Patriarcado entrou em seus aposentos. Ele a amava. Escravidão lhe era servil, submissa e silenciosa. A tentou possuir… tentou mais uma vez… outra vez… até que finalmente conseguiu. Dessa cópula indigna nasce a sua Princesa querida: a Branquitude. Muito branca – como o próprio  nome já diz – cresce perversa.

 

Já adolescente, decide que quer mandar no Reino. Faz um pacto com sua avó, a Rainha Dominação. Precisam antropomorfizar o Rei Destruição. Resolvem servi-lo em um banquete para todos os súditos. Enrolada nas vestes de Madame Dominação, a Escravidão parece menor e mal alimentada. Subalterna aos desejos da filha e da sogra que reestrutura todo o Reino. Maravilhado pela beleza de sua filha, o agora Rei Patriarcado, desposa sua perfeita Branquitude. A Escravidão, definha até os dias de hoje em porões sujos, junto com crianças e velhos. Se aloja em manicômios com os marginais da terra e se aloca no coração dos que desejam o poder do Patriarcado e a estrutura da Branquitude. Bom… sobre estes últimos… Você com certeza os conhece. Eles venceram. Estão por aí… por todo o lado e junto com a Dominação e alguns pitacos da Tirania, continuam cada vez mais fazendo adeptos.

About Post Author

Van Rodrigues

Professora de Música na Rede Municipal de Hortolândia, graduada em Música pela Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Mestre em Composição Musical pela Unicamp. É especialista em Psicologia Analítica pela e Psicanálise. Atualmente mora em Campinas não mantém vínculos com nenhuma Instituição Universitária no momento. É Professora colaboradora do Instituto D'Alma - SP. Participa e coordena o Grupo de Estudos Independente “Pensando Branquitude” e ministra cursos livres com a temática antirracistas e os impactos da branquitude nas relações psíquicas. Tem atuado na Clinica e trabalha no Ensino Fundamental na Rede Pública Municipal de Hortolândia dando aulas de Dança e Música em escola integral.
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By Van Rodrigues

Professora de Música na Rede Municipal de Hortolândia, graduada em Música pela Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Mestre em Composição Musical pela Unicamp. É especialista em Psicologia Analítica pela e Psicanálise. Atualmente mora em Campinas não mantém vínculos com nenhuma Instituição Universitária no momento. É Professora colaboradora do Instituto D'Alma - SP. Participa e coordena o Grupo de Estudos Independente “Pensando Branquitude” e ministra cursos livres com a temática antirracistas e os impactos da branquitude nas relações psíquicas. Tem atuado na Clinica e trabalha no Ensino Fundamental na Rede Pública Municipal de Hortolândia dando aulas de Dança e Música em escola integral.

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