Protagonismo Negro e o Lugar do Gozo da Negritude


Esta semana, zapeando pelas minhas redes sociais – me considero uma pessoa conectada – me deparei como a entrevista de Silvio Almeida na Revista Exame. Ele tem sido um divulgador importante da Luta Antirracista e tem se colocado com opiniões importantes e teoricamente fundamentadas, não só no campo da Filosofia, mas também dentro das mais modernas teorias políticas e sociais que tratam da questão do racismo. Silvio tem tratado a questão do racismo não só como uma patologia social, mas também como uma forma destrutiva de condução Econômica e Política. Eu poderia aqui focar na questão do porque concordo com essa visão Antirracista em detrimento de algumas proposições que me são dadas como corretas, mas desta vez não é esse o tema. Me interessei bastante pelo comportamento das pessoas, ilustrados pelos seus comentários. Mais necessariamente os das pessoas pretas.

Mas antes quero falar de um outro fato. Na semana que passou a Netflix estreou uma série de documentários pequenos, chamados “AFRONTA!” e na próxima semana, será a vez de Emicida protagonizar sua vida no canal de streaming. Então, o que tem a ver Sílvio Almeida, o “AFRONTA” e Emicida para além de serem todos assuntos relacionados às pessoas pretas? “O grau de visibilidade…”, poderia alguém responder. Mas há algo mais. Temos problemas enquanto negros de aceitar o protagonismo de outros negros nas mídias. Sim… Isso não é fácil de admitir. Não reconhecemos como nossa a voz de pessoas pretas que estão nas grandes mídias dizendo, generosamente, sobre o que nossa luta representa para as pessoas brancas desavisadas e alienadas. Nós também ainda não nos habituamos com pretos em lugares de destaque, mesmo que eles estejam lá com o desejo de representar quem somos, de realizar conexões e construir novas narrativas para os brasileiros negros que são marginalizados. Mesmo que em sua trajetória tenham sido coerentes e leais às convicções relacionadas ao Antirracismo.

Numa pesquisa rápida na internet sobre Emicida, encontrei dez referências midiáticas ao documentário e centenas de pessoas negras o criticando por estar neste lugar de protagonismo Encontrei apenas uma citação na internet especificamente à essa entrevista de Silvio Almeida na Exame. O curioso é que mais uma vez, pessoas negras se apressaram, pois provavelmente não conhecem a sua trajetória, a criticá-lo considerando-o “seduzido” ou “usado” pelo canal de comunicação que o entrevistou. Sobre o trabalho do “AFRONTA”, duas referencias e nenhum comentário extraordinário sobre a produção dirigida por Juliana Vicente. A pergunta que me acomete é: onde queremos protagonizar? E pensando psicanaliticamente, “onde está o gozo do povo preto?”. Talvez eu precise explicar melhor esses conceitos.

Cresci sem ver uma só boneca negra. As minhas, todas brancas, para que elas ficassem parecidas comigo, eu as esfregava na terra, para que as suas peles escurecessem. Não me lembro de nenhuma garota considerada bonita na escola, que fosse negra. Muito menos na televisão, filmes ou coisa parecida. Faltou gente preta mandando e falando o que pensa. O resultado disso é que demorei anos para entender o quanto estava imersa na branquitude e o quanto ela me fez embranquecer. Faltou protagonismo enegrecido. Nos acostumamos com isso. Nos acostumamos a sempre sermos subalternos. Como diz Grada Kilomba, num trecho de seu livro “Memórias da Plantação”, a ‘subaltena nunca fala’. Sobretudo no lugar onde os brancos falam.

Para a Psicanálise, o lugar do gozo, do prazer é o lugar do Eros. Esse lugar simbólico que é representado por tudo que nos dá alegria e prazer, e que no caso de nós pessoas pretas, foi dissociado de nós e representado no ideário imaculado criado pelos brancos de superioridade. Então, para gozarmos, sermos felizes precisaríamos estar longe deles. Isso é correto? Sim e não. Enquanto seres únicos, munidos de identidade, podemos gozar onde quisermos. E as pessoas brancas precisam entender que ocupamos onde e o que quisermos, mas, sobretudo, as pessoas negras também tem de acolher isso! Estamos nos espaços brancos para negritar nossa existência. Temos que estar juntos nisso e se não nos sentimos partes, precisamos pensar isso. Qual é o contorno que divide nosso lugar de protagonismo da projeção de inferioridade que a branquitude nos impôs? Por que julgamos que um negro com discurso Antirracista num espaço antigamente ocupado por brancos é ingênuo ou embranquecido? Por que, mesmo em espaços de protagonismos, são ainda julgados como “subaltenas”, mesmo por seus pares?
É preciso pensar onde está o nosso Eros. E não deixar que ele esteja vinculado nos lugares de maniqueísmos que nos foram impostos. Estamos ocupando lugares. Todos os lugares. E queremos que estejamos juntos enegrecendo espaços e negritando opiniões.

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