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2020: chacoalhão no Mundo

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Chegou a hora de deixarmos, pelo menos no calendário, o ano de 2020 para trás? Na lembrança? Espero que não seja assim. Acredito que a maioria das pessoas estão felizes, pois deixarão ali, no passado de ontem, todas as dificuldades e sofrimentos vividos nesse ano marcante para o primeiro quarto do século. Como uma caixa de memórias, todos momentos, situações, agruras, augúrios serão postos em algum canto para acumular poeira e serem revisados em momentos de nostalgia.

Mas será que 2020, tão bonito na grafia, foi tão ruim assim?  Fiquei por dias pensando nisso. Qual seria a estrutura desse último texto para o Imprensa Preta nesse ano? Pessoalmente, uma grata satisfação e enorme honra poder fazer essa publicação e reflexão em um dos presentes que recebi durante o ano. Fiquei elaborando mentalmente o ritmo do texto e sua composição. Entre elas, uma possível conversa entre 2019 e 2021, na qual o mais velho conta detalhes do que viu sobre o irmão par. Outra ideia foi o dia 31 de dezembro contando para o primeiro de janeiro de 2020 todo o peso dos pedidos que teve que enfrentar nas últimas horas. Peso renovado pelos fusos horários, pois o Mundo ia girando e as pessoas derramando lamentos. Cheguei a conclusão de que ficaria um tanto quanto baixo astral para um momento de tanta esperança. Então vai aqui a minha reflexão sobre 2020: o ano que chacoalhou o Mundo.

No meu início de carreira, como repórter, fui entrevistar um padre que tinha um trabalho forte e que ecoava, naquele momento, entre os jovens da paróquia. Fui acompanhado de uma jovem, estudante de jornalismo, e que atuava como fotógrafa no jornal. Ela estudava à noite e seguia do pós-aula para as baladas universitárias. O padre um sujeito de fala mansa, mãos macias, brilho nos olhos ao falar dos ensinamentos bíblicos e da forma como atuava com a juventude, nos atendeu em sua sala com claridade leve e somente nossa voz quebrava o silêncio. Fiquei envolvido com suas histórias e não percebi que minha colega cochilava. O pároco começa a contar que quando os jovens dormiam em suas pregações, ele saia do altar e ia até o dorminhoco e dava-lhe um chachoalhão, dizendo: “Acorda para Jesus!” Enquanto ele contava essa história, se levantou e caminhou até a minha colega e mostrou o gesto das missas.

Faço uma analogia dos acontecimentos do ano com essa história. O Mundo estava adormecido em 2020. Esse é o chacoalhão que recebemos com a frase “Acorde!” Deve ser para os ensinamentos de Jesus. Para os ensinamentos de outras matrizes religiosas. Para nossa responsabilidade como humanidade. Para enfrentarmos e sermos antirracistas. Para termos mais respeitos às diferenças. Para que sejamos mais humanos e mostremos, verdadeiramente, amor ao próximo. Esse ano foi o momento para realmente aprendermos. Quem sair dele achando que foi apenas um ano difícil não aprendeu nada do que era necessário.

Fomos colocados em isolamento para que nos aproximássemos de nós mesmos e passássemos a ter mais respeito pelo o outro. E ao distanciarmos percebemos o quanto estamos empobrecidos, coletivamente, da capacidade de empatia, de preservação, de valorização, de responsabilidade, de compaixão, entre outros sentimentos. No distanciamento pudemos ver como temos problemas juntos e somos cruéis. Como destruímos em grupo e como somos induzidos a destruição. Temos mais de três quartos de século para modificarmos tudo isso. 2020, que o bonito graficamente, mostrou pela dor como podemos tomar o caminho do amor ao próximo, ao planeta, à nossa existência.

Quem viu em 2020 apenas um ano de paralisação em seus planos, um momento de perdas, um fim em si mesmo, perdeu dias e horas preciosas de reflexão. Como na Alegoria da Caverna, de Platão, esse ano no colocou dentro de um espaço com muitos espelhos, e como diria Renato Russo, “nos deram um espelho e vimos um mundo doente”. Por invenção humana, podemos virar o tempo e o ano. Abrirmos um novo calendário, para que venha a reconstrução de sonhos. Então, saia da caverna de espelhos e chacoalhe seu mundo para que seja do belo e do amor.

Perdi o contato com a minha colega de reportagem. Pouco tempo depois da entrevista com o padre já não trabalhávamos junto mais e não mantivemos contato. Não sei se o chacoalhão fez diferença em sua vida. Se ela acordou para algo. Quanto a 2020 tenho certeza que poderei acompanhar o quanto seu chacoalhão fez diferença nas pessoas. A começar por mim, sei que devo e tenho que mudar conceitos sobre muitas coisas. Não apenas mudar meus paradigmas, mas agir. O importante dessa chacoalhão de 2020 é que foi para a humanidade. Ninguém poderá dizer que não foi avisado ou que não percebeu. Que 2020 não fique tomado pela poeira. Tchau 2020, ano de grafia muito bonita.

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Celso José Oliveira

Jornalista, Mestre em Ciência da Comunicação, Professor, Assessor de Imprensa e Agrofloresteiro.
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