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Dias Sombrios

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Crônica de um Futuro anunciado

Cresci ouvindo que o Brasil é o País do Futuro. E a gente como bom brasileiro não desiste nunca… Como uma otimista convicta , me mantive  acreditando.  Mas de uns tempos pra cá, tá difícil manter a fé. Sou uma preta, mãe solo, paulistana que fez o processo inverso , vim morar no Nordeste. 

Com quase 50 anos, atravessei vários períodos de nosso Brasil varonil.Crescendo na zona Oeste , na Pompéia tive minha infância, cresci na bolha… Nasci na ditadura, cresci e vi a luta por Democracia.  Fui pra Av. Paulista, geração  cara pintada gritando Diretas já, chorei por Tancredo. Vi Collor subir e cair, fui ativista, democrata  fervorosa, progressista em construção, vi panelaço, apitaço, trafeguei entre um tour gastronômico de coxinhas e mortadela. Mas nada nos preparou para tudo que estamos vivendo.  

O machismo e racismo , sempre estiveram ali do meu lado. As vezes eu era tocada por essas violências e atos irracionais.

 Sou a terceira geração de mulheres da minha família que vivenciaram relações abusivas. Eu pessoalmente sofri os 5 tipos de violência  ( psicológica, moral, patrimonial, física e sexual).Já tive situações típicas de racismo, que todos nós  pretos e pretas durante a vida enfrentam. Quem nunca, teve um segurança dentro de uma loja com olhar atento e vigilante acompanhando ou aquele comentário gentil: ajeita esse cabelo , ele tá muito armado. 

Não me considero vítima sou sobrevivente. Mas nunca, desde que nasci vi tão naturalizado certos comportamentos. Viramos fraquejada, se relacionar com pretos e pretas foi considerado falta de educação. Fomos induzidas a ser recatadas e do lar, afinal a mulher tem que ser submissa ao parceiro devendo aceitar que ele tenha maior grau de instrução. 

E tudo isso dito por figuras influentes que deveriam nos motivar, afinal em pleno século XXI eu ouvi um preto dizer que ser escravizado foi bom para todos nós… Pra finalizar, assim como nos Estados Unidos tivemos o caso de uma mulher que foi imobilizada e teve seu pescoço pisado por um policial.

Enquanto na América do Norte brancos e pretos, comuns e famosos se uniram em uma grande corrente repetindo “ Eu não posso respirar”, em terras tupiniquins esboçamos todo nosso apoio, escurecendo nossos perfis para o americano morto. Mas demos mais evidência a um nude exposto de um famoso cantor do que apoio a essa mulher… E aí repito, qual futuro é esse que o 

Brasil se encaminha??? Eu não consigo respirar , devido a máscara que tenho que usar devido a essa Pandemia que parece nunca terminar devido ao descaso de um governo separatista e irresponsável que nos divide e separa. Deixando em evidência e estimulando todo o horror que antes era minimamente controlado. Estamos morrendo de tantos fatores e atingidos por tantos horrores, minha antiga convicção e otimismo foram atingidos. Só me resta a última defesa. Desistência não é uma opção, eu Desisti de Desistir…

About Post Author

Andreia Souza

Andreia Souza, paulistana de nascença, potiguar de coração. Mulherista , preta, mãe solo de dois filhos: Gabriel & Aysha. É a terceira geração de mulheres que vivenciaram a condição e situação de violência domestica em sua família. Mas não a chame de vitima ela se auto intitula Sobrevivente. Coordenadora do grupo Mulheres na Contramão e da Iniciativa DIVERGENTE 5, produtora cultural é apaixonada por audiovisual. Em 2018/2019, participou de 03 curtas metragens. Em 2020 esta com roteiro pronto para rodar o seu. Lançou seu primeiro livro em 2018 denominado” Re Existir, o X da questão”, em 2020 participou da Coletânea Escrituras negras A mulher que Reluz em Mim , com organização de Jeovânia P . Atualmente envolvida nas causas de combate a violência contra a mulher e o empoderamento feminino através da sustentabilidade. Sua palavra de ordem e meta: Equidade. Formada em 2019 na Escola Política RenovaBR, é Líder Nordeste do Movimento Nacional “ Vai ter mulher sim “, além de participar no Projeto #Estouaquiparacontar da atriz Thaina Duarte. Seu lema: Desistir de Desistir.
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