Pular para a barra de ferramentas

50 tons de pele

Andreia Souza 2
Read Time1 Minute, 48 Second

Quando penso que nada vai me surpreender… Cresci com a estigma de ser uma preta em uma sociedade que me chamava de café com leite pelo tom de pele, ao mesmo tempo  que durante as brincadeiras ser “ café com leite” servis para brincar como coadjuvante, figurante.. Não morria na queimada, não era eliminada no pega-pega. Ficava continuamente correndo e levando boladas.. Refletindo hoje me parece tão estranho. Quando vivi tudo isso, me parecia normal, a estranha era eu…Cresci feliz, numa vida emprestada, fazendo de tudo para ser aceita e ao máximo parecida com a realidade branca que me cercava.

E eu cresci, percebi me e enfim empoderei. Com orgulho ao me descrever  após o nome já digo Preta… Qual não foi a minha surpresa, quando uma pessoa reagiu espantada  ao me ouvir dizer Preta.  Com autoridade me declarou no máximo “parda”. Uma sensação de desconforto um não pertencimento me atingiu por alguns minutos.

Mas aí então me veio a reflexão. Desde quando para ser preto tem que ser retorno??? Desde quando terceiros definirão quem eu sou. Respirei e resisti ao impulso de  ser grosseira. Comecei a dizer de forma irônica mas verdadeira. Meu tom de pele é decorrência das inúmeras pretas que foram violadas lá no período de Brasil Colônia , trazendo ao mundo crianças de pele clara com alma cativa. Sua pele clara era uma mancha uma falha.. Uma criança que não pertencia a Casagrande e era na senzala a lembrança da impotência e da violência.  Mas já que continuava escravizada era como pretas e pretos que todos a viam..

E assim crescemos e julgava eu em pleno século XXI julguei ,evoluímos … Ao ver no momento atual tantos debates e protestos exigindo ainda a tal Liberdade & Respeito. Ver minha identidade diluída, embranquecida e violada, foi um choque…

Não o digo isso para usufruir de cotas ou ser incluída em minorias. Digo isso por Orgulho, para reafirmar minha identidade e ser parte desta grande corrente de representatividade. Não me julgue .não delete quem eu sou tentando clarear minhas raízes , me poupe de seus pré conceitos. Sou preta de alma preta… Se puder enxergue se não conseguir respeite.

1 0

About Post Author

Andreia Souza

Andreia Souza, paulistana de nascença, potiguar de coração. Mulherista , preta, mãe solo de dois filhos: Gabriel & Aysha. É a terceira geração de mulheres que vivenciaram a condição e situação de violência domestica em sua família. Mas não a chame de vitima ela se auto intitula Sobrevivente. Coordenadora do grupo Mulheres na Contramão e da Iniciativa DIVERGENTE 5, produtora cultural é apaixonada por audiovisual. Em 2018/2019, participou de 03 curtas metragens. Em 2020 esta com roteiro pronto para rodar o seu. Lançou seu primeiro livro em 2018 denominado” Re Existir, o X da questão”, em 2020 participou da Coletânea Escrituras negras A mulher que Reluz em Mim , com organização de Jeovânia P . Atualmente envolvida nas causas de combate a violência contra a mulher e o empoderamento feminino através da sustentabilidade. Sua palavra de ordem e meta: Equidade. Formada em 2019 na Escola Política RenovaBR, é Líder Nordeste do Movimento Nacional “ Vai ter mulher sim “, além de participar no Projeto #Estouaquiparacontar da atriz Thaina Duarte. Seu lema: Desistir de Desistir.
Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleppy
Sleppy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

2 thoughts on “50 tons de pele

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Next Post

Vacinação Contra a Influenza segue até 24 de julho

Grupos prioritários devem procurar o posto de saúde mais próximo para receber a vacina A Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza foi prorrogada até o dia 24 de julho, a medida foi tomada devido a baixa procura pela imunização dos chamados grupos de risco da doença, formado por idosos, […]

Subscribe US Now