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Ancestralidade FEMINISMO NEGRO 

Luísa Mahin _ A princesa africana e uma líder da Revolta dos Malês

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Luísa Mahin

A princesa africana e uma líder da Revolta dos Malês

Luísa Mahin  foi uma mulher negra, quitandeira e como costumava afirmar uma princesa africana que antes pertencia a região de Mahí, no Daomé, onde atualmente fica Benin, apesar de muitos estudiosos e historiadores acreditarem que ela tenha nascido em Salvador.   

Um dos indícios apontam que pela grande articulação e astúcia ela e outras quitandeiras, empreendedoras negras conseguiram ajudar e potencializar inúmeras revoltas, levando como título a liderança de uma das maiores e conhecidas revoltas já ocorridas no Brasil, o Levante dos  Malês em 1935. Sendo descrita como uma mulher negra da pele retinta, que ecoava a suas idéias de luta pela libertação dos escravizados e por melhor condição de vida de seu povo.

Sua casa em Salvador foi tida como um quartel para traçar estratégias e colocar em execução os planos de insurreição, usando de seu conhecimento territorial, sobre as vilas e ruas das quais ela trabalhava para a fuga, armadilhas  e melhor preparo dos participantes nas revoltas. 

A sua história, bem como de outras mulheres negras que foram importantes para esses levantes, não são narradas e a ausência de documentos e registros físicos dificultam o processo de colocar  essas personalidades num espaço de notoriedade na luta pela abolição do sistema escravagista.

É por meio da carta de seu filho Luís Gama que  sua história ganha voz e é elucidada, um abolicionista que até o final de sua vida ajudou a libertar e alforriar mais de quinhentos negros, numa de suas cartas a um amigo próximo está o único registro físico que atesta a passagem  de Luísa Mahin pelas terras brasileiras como uma personalidade perspicaz, além disso, conta-se com a narrativa popular  construída  em cima dessa mulher, como uma das ferramentas importantes para que ela não seja renegada de vez  ao lugar de esquecimento e apagamento. 

Nos escritos de Luís Gama, propõem que possivelmente sua mãe foi deportada quando mais velha para o continente africano  quando foi pega em uma rebelião  no Rio de Janeiro

Luiz Gama

Minha Mãe
Minha mãe era mui bela,
– Eu me lembro tanto dela
De tudo quanto era seu!
Tenho em meu peito guardadas
Suas palavras sagradas
C’os risos que ela me deu.
(Junqueira Freire)
Era mui bela e formosa,
Era a mais linda pretinha,
Da adusta Líbia rainha,
E no Brasil pobre escrava!
Oh, que saudades que eu tenho
Dos seus mimosos carinhos,
Quando c’os tenros filhinhos
Ela sorrindo brincava.
Éramos dois – seus cuidados,
Sonhos de sua alma bela;
Ela a palmeira singela,
Na fulva areia nascida.
Nos roliços braços de ébano.
De amor o fruto apertava,
E à nossa boca juntava
Um beijo seu, que era vida,
Quando o prazer entreabria
Seus lábios de roxo lírio,
Ela fingia o martírio
Nas trevas da solidão.
Os alvos dentes nevados.
Da liberdade eram mito,
No rosto a dor da aflito,
Negra a cor da escravidão.
Os olhos negros, altivos,
Dois astros eram luzentes;
Eram estrelas cadentes
Por corpo humano sustidas.
Foram espelhados brilhantes
Da nossa vida primeiro,
Foram a luz derradeira
Das nossas crenças perdidas.
Tão ternas como a saudade
No frio chão das campinas,
Tão meiga como as boninas

Aos raios do sol de abril.
No gesto grave e sombrio,
Como a vaga que flutua,
Plácida a mente – era a Lua
Refletindo em céus de anil
Suave o gênio, qual rosa
Ao despontar da alvorada,
Quando treme enamorada
Ao sopro d’aura fagueira.
Brandinha a voz sonorosa,
Sentida como a Rolinha,
Gemendo triste sozinha,
Ao som da aragem faceira.
Escuro e ledo o semblante,
De encantos sorria a fronte,
– Baça nuvem no horizonte
Das ondas surgindo à flor;
Tinha o coração de santa,
Era seu peito de Arcanjo,
Mais pura n’alma que um Anjo,
Aos pés de seu Criador.
Se junto à cruz penitente,
A Deus orava contrita,
Tinha uma prece infinita
Como o dobrar do sineiro,
As lágrimas que brotavam,
Eram pérolas sentidas
Dos lindos olhos vertidas
Na terra do cativeiro.
(SILVA, Júlio Romão da. Luiz Gama e suas poesias satíricas. 2 ed. Rio de Janeiro:
Cátedra; Brasília: INL, 1981. p.201 – 203.)

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Noemy Ariane Tomas

Noemy Tomas, militante negra, cientista social em formação pela PUC Campinas.
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