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Esperança Garcia _ O resgate da humanidade do povo preto

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Carta e Petição de Esperança Garcia – foto Paulo Gutemberg

Esperança Garcia, era uma mulher negra escravizada na região de Oeiras na fazenda de Algodões, a princípio sendo vigiada pelos padres jesuítas.

Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, Esperança Garcia foi arrancada da fazenda Algodões, sendo enviada para a Inspeção de Nazaré ( atualmente o Município de Nazaré no Piauí). 

Em 06 de setembro de 1770, ela colocava de modo articulado suas denúncias de maus tratos numa carta ao governador da Província de São José do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, retratando os abusos físicos por parte do inspetor Antônio Vieira de Couto, o qual tinha colocado ela em sua residência dando-a o trabalho de cozinheira.  

Utilizando da religião católica como uma estratégia para a sua reivindicação, uma vez que na época era uma religião hegemônica e que ganhava cada vez mais relevância social, a utilizando-se das ferramentas da colonização para enfatizar e dar suporte para a sua denúncia.

A carta retrata as condições em que estavam os escravizados, a maneira como foi levada a força para a fazenda em Nazaré, sendo separada do marido e impedida de batizar a sua filha, as torturas e espancamentos sofridos por ela e seu filho, uma criança com cerca de cinco anos, colocando como reivindicação para uma melhora no tratamento dos escravizados, um tratamento digno e humano ao povo preto e o apelo em estar novamente junto ao seu marido. 

Ressaltando que neste período os negros eram proibidos de ter acesso a leitura e quem fosse pego ensinando-os era punido, além da naturalização de que o destino a este povo estava distante da alfabetização.

Sua história  simboliza de inúmeras formas a importância da coletividade e da rede de apoio para que esta carta estivesse em mãos do governador, existem rumores sobre este caminho da saída da carta até Gonçalo Lourenço, a reflexão  que fica é sobre o processo violento que Esperança passou até que a carta fosse concebida, a insegurança e o medo de uma represália por parte do inspetor e sua corja, a incredulidade que as autoridades da época teriam e a incerteza do rumo dessa denúncia.

A força em escrever a carta demonstra todo processo de convencimento de que este  feito seria de extrema importância, este registro é um dos poucos documentos que se tem de uma pessoa que vivenciou o sistema escravocrata e foi submetida aos horrores da época.

A estratégia traçada  demonstra como ela foi uma mensageira  das mulheres negras e de todo o povo preto, a maneira da escrita dessa reivindicação pelos direitos e o tratamento com dignidade , numa tentativa de resgatar a humanidade do povo preto revela que ela não tinha uma prática na escrita entretanto era alfabetizada e utilizou-se de recursos semelhantes aos usados em petições judiciais, um dos motivos pelos quais a fez ser reconhecida como a primeira advogada piauiense e precursora na luta pelos  Direitos Humanos no Brasil. 

Existem inúmeros questionamentos sobre a história dela ao longo de sua vida, conseqüência explícita do atravessamento histórico do racismo e do machismo, por ser uma mulher negra.  A tentativa de apagamento de seu legado foi devastador, mas não foi suficiente para enterrar seu ideal e sua participação na luta pelo direito de seu povo.

No Piauí, foi declarado no dia 06 de setembro o Dia Estadual da Consciência Negra em 1999 e em  2017 ela foi reconhecida como advogada pela OAB/PI( Ordem dos Advogados Brasileiros). A busca pela libertação do povo preto está intrínseca a personalidades como ela.

Carta atualizada

“Eu sou uma escrava de V.Sª. administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões , onde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.Sª. pelo amor

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Noemy Ariane Tomas

Noemy Tomas, militante negra, cientista social em formação pela PUC Campinas.
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