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Conexão com as ancestralidades para “além da conjuntura” e afetividades no conjugar luta.

Eddie Junior
Read Time7 Minute, 58 Second

Por – Bob Controversista

“Nós somos antigos

Tão antigos quanto o sol

Viemos do oceano

Outrora nosso lar ancestral

Então um dia

Poderíamos todos retornar

Para nosso direito de nascença

O grande firmamento celestial”

(Children of The Sun)

Mais uma vivência importante nestes últimos 15 dias, dias de reflexão sobre luta, luta ininterrupta de mulheres pretas e homens pretos desde seu sequestro em África, a chegada a este continente e a necessária e urgente construção de tecnologias sociais de manutenção da vida, ou mitigadoras dos vários traumas causados pelo patriarcado racista e capitalista, que tem desdobramentos na vida dos filhos e filhas da diáspora forçada. A busca foi melhor compreender, compreendendo, comprometer e comprometendo seletivizar, todas as cosmogonias Africanas em uma unidade cultural nascida nas diásporas.

Buscar curas para o corpo e para a alma, buscar nas ancestralidades o apoio necessário para os traumas da vida de um sujeito preto em uma sociedade racista, consumista (capitalista) e o verdadeiro perdão no perdoar e o amparo no amparar, corpo e espírito. Buscando o curar com afetividades negras compartilhadas que, se equilibra nas rezas, nos cantos (conexão com a Cangoma), na dança e junto aos elementos firmar a corrente com boas intenções para uma boa colheita.

Buscando trabalhar a reforma íntima, enraizadas da natureza, a evolução do meu/nosso “ser e estar”, compreender-se com o coração aberto e se conectar com as medicinas ancestrais, mas também para conhecer um Templo só meu, experienciar a energia, se conhecer e abraçar o meu Divino, que sou, me/nos auxiliando a melhor lidar com os meus/nossos processos, e, manter parte de mim/nós a estar aberto para essa cura. Reconectar-me com a paz, e espontaneamente de todos os processos que me mostrem equilíbrio.

Hoje busco me/nos comprometer com esta melhoria. Guiar-me/nos também pela minha/nossa própria consciência, no fundo, saber o que é certo e o que é errado. Quando é hora de ceder, de perdoar, de compreender-se e se afetivizar ao próximo para além das minhas/nossas ações enquanto militante na defesa de direitos, ter momentos de reflexão nos dias anteriores à mais uma pandemia, (vale aqui um parênteses, pois somos sobreviventes de várias pandemias, a pandemia do preconceito, a pandemia das discriminações e segregações, a pandemia das diásporas forçadas, a pandemia MAAFA [i]forçadas, a pandemia do feminicídio, a pandemia do genocídio das juventudes pretas, a pandemia do racismo nas suas mais diversas formas, sobretudo o racismo institucional) para que seja, eu/nós, mais madurxs e com mais aprendizados e trazendo os resultados do que já estou/estamos, tentando, fazendo no dia a dia, juntos as curas que quero/queremos com o tempo, que é hora de realizar na vida.

Como filho de Oxóssi me conecto com a floresta que me ensina a buscar a simplicidade da Natureza e de minha natureza interior, em cada momento, juntxs, nossas naturezas interiores elevando-se e conectando-se na Roda de Cura a Mãe e ao Pai de todas as naturezas, guardiões que trazem o ensinamento, não doutrinados a ninguém, e, acreditando que o equilíbrio é o melhor caminho. Manifestando a devoção sempre bem-vinda, trabalhando de forma universalista, acreditando que abraçar e despertar a consciência das experiências divinas dos povos das florestas.

E aqui começa meu relato de um 2020, que tem sido, motivo de um processo presente muito difícil, de vários traumas, perdas e fragilidades na saúde mental. Ano que os testes foram em suma uma permanente revisita à crença da conquista do inédito viável e suas consequências ligadas ao esperançar. No entanto houve luta, há luta, e esta, permanente, conjugação resiliência/luta para se manter vivo, luta para mitigar as tristezas, luta para decidir chorar as perdas ou viver com o que sobrou.

Luto e construo na desconstrução, conecto pessoas e me desconecto de outras pessoas. Estamos apenas no início do ano de Xangô, o Orixá da justiça, da cobrança das leis divinas e da severidade, ano do Sol, ano influenciado no espírito de justiça, sabedoria e intensidade. Não incorro em pedir justiça para este Orixá, lhe peço sabedoria para lidar com as injustiças e que ele na sua sapiência decida e me oriente. Neste momento agradeço, por em meio a tantas e tantas atrocidades por ter tido a sua companhia para poder lidar com o que Ogum colocou na ponta da sua espada, agradecer por ter chegado até aqui e ainda de pé.


A “peste branca” na sua condição mais transformadora

Estas reflexões foram metalizadas e sistematizadas por um suburbano em auto-exílio forçado, compreensões, contradições e respeito. No entanto está chamada (peste branca) tem apenas um objetivo.  Assim com as citações “a situação está preta”, “lista negra”, “ovelha negra”, “mercado negro”, “não vamos denegrir”, “peste negra”, entre outras falas que coloco como pejorativa, mas que não causam muita indignação, vamos nós negrxs a ser mais atingidos pelo covid-19 e reflito, em que momento estamos? Que mensagem nossxs ancestrais estão encaminhando para nós?

Quando falo de “peste branca” aponto para uma questão central, ela foi traga para cá por brancxs, ricos, hetero-normativos e cristãos. O caso 0 ou 1 na África foi levado por um italiano, mesma coisa sobre o Influenza, gerador da “gripe espanhola” que nasceu nos EUA e recebeu este nome por conta da Espanha não estar participando de uma guerra mundial e por tanto tendo como principal notícia esta aberração que matou mais de 100 milhões de pessoas.

Quando uso este termo chamo à reflexão e diálogo social educativo. O vírus é um vírus, mas geneticamente é branco. Não se trata de extremismo, porém temos que ideologizar sim, temos que politizar sim e para me igualar a estes que usam cotidianamente as palavras que citei acima teríamos que voltar 520 anos atrás, trocar a invasão europeia em nossas terras por uma Africana e em menos de 100 anos depois em vez de receber pessoas sequestradas, vendidas e escravizadas de África, recebermos esses seres humanos da Europa.

O momento é extraordinário para nós e para o planeta. Em 15 dias todas as nações do mundo se rendem ao invisível. Nenhum dinheiro do mundo pode aplacar o medo que hoje habita os corações dos ditos donos da estrutura. A capital mundial do dinheiro finalmente descobre que não é possível comer e respirar as fortunas em carros, joias, casas, barcos, jatinhos etc., não dá para comer seus armamentos e o papel higiênico verde. A soberba parece condenada a encontrar seu fim. Enquanto isso, a natureza, organismo vivo, aproveita a ausência do homem e se cura.

Rios estão ficando mais limpos.

O ar está menos impuro em todo mundo e as estrelas estão mais visíveis. Tudo em 15 dias. Enquanto a solidariedade se destaca em alguns, outros exacerbam seu egoísmo, deixando evidente quem serão os futuros moradores da Terra regenerada. E, que ironia, esse abençoado vírus parece não atacar os animais. O seu alvo é a raça humana. Abençoado sim, pois nos foi ensinado que a dor é grande professora. E quantas lições podem ser aprendidas com essa situação. O que acontece nesse momento é uma oportunidade única de questionamento do sistema capitalista e promoção de “um outro mundo possível”.

As guerras nuclear e biológicas eram o carma da raça humana. A autodestruição o seu destino. Mas esse planeta regido pelxs nossxs Orixás, recebeu a chance maravilhosa de ter um chamado diferente. Em vez de se auto destruírem para aprenderem a fraternidade, se afastarão, para aprenderem na dor da solidão e a importância da colaboração e a elevação do inconsciente da autoavaliação do próprio eu, reprimido pela maquinaria ocidental do consumo. Sentirão na falta de contato humano, a importância de um abraço. Os seus contatos virtuais não serão suficientes para aquecerem seus corações. Dor, lágrima e sofrimento ainda serão sentidos nos próximos meses. Mas feliz daquele que entende esse momento sublime.

Tudo em 15 dias. O que não será possível quando esta vibração for perene? O momento é de mudança! Mudança para uma nova e renovada forma de viver, produzir e distribuir. E é chegada a hora de espalhar esperança e solidariedade. Aqueles que têm consciência do atual momento, têm a enorme missão de levar esperança aos corações sofredores. Sejamos semeadores da esperança, os que entenderem e aproveitarem esse momento, pois quando tudo passar, serão bem vindos a um “sistema- regenerado”.

Seguimos em luta, que nossas metodologias sejam didatizadas sem a necessidade da problematização chocosa. Agradeço a paciência, parceria e pontuais e necessários diálogos com vários e várias dxs meus iguais. 2020 que Yansa e Oxum, ao lado de Xangô, o paizão, forte, severo e que impõe a justiça nos apresente a necessárias melhorias nos vários aspectos, ano de afetivizar, e no campo das afetividades, de se relacionar, de formar lindas relações interpessoais e, portanto, de recomeços. Gratidão, Gratidão e Gratidão. Que o Oxé lápide, que proteja e na escolha do plantio colhamos o melhor. Asé Ô! Força e poder para o povo pretx


[i] Maafa (ou Holocausto africano, Holocausto da escravização ou Holocausto negro) são neologismos políticos (que se tornaram populares de 1998 pra frente usados para descrever a história e os efeitos contínuos das atrocidades infligidas ao povo africano, particularmente quando cometidos por não-africanos (europeus e árabes, para ser exato) especificamente no contexto da história da escravização, incluindo o tráfico árabe de escravizados e o comércio atlântico de escravos e dito como “presente até os dias atuais” através do imperialismo, colonialismo e outras formas de opressão.

Primeiramente a Ótica da Comunicacão – Laroyê Exu, Exú MOJUBÁ.
Bob Controversista
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