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O Cultivo da Serenidade

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SERENIDADE PARTE 2

Segunda Parte – Por Antonio Marcelo Campos

As quatro funções do Cultivo da Serenidade 

Quando cultivada de forma adequada e constante a serenidade se transforma em um poder interior, em uma força que nos torna capazes de lidar com as inúmeras adversidades a que estão sujeitos todos os seres. Um antigo ditado chinês diz que “a serenidade espiritual não é adorno para os dias felizes e sim para as ocasiões difíceis do caminho.” 

Enquanto poder interior, o Cultivo da Serenidade possui quatro funções que nos habilitam à experiência da paz, da tranquilidade e do desprendimento, mesmo em meio à turbulência comum do nosso dia a dia: parar, acalmar, descansar e curar

Parar é deter a força dos nossos hábitos nocivos. 

Acalmar é neutralizar a nossa emotividade intensa e negativa. 

Descansar é soltar da nossa mente o descontrole obstinado e tortuoso da atividade constante dos nossos pensamentos, dos nossos apegos e infinitos desejos insaciáveis. 

Curar é deixar emergir o silêncio reparador, a amorosidade expansiva e o sentimento de cumplicidade para com tudo que é puro e bom na realização da vida. 

A concentração nos auxilia a parar e acalmar; a serenidade nos auxilia a descansar; a perceptividade nos conduz à cura. Quando descansamos na serenidade, parar, acalmar e se curar se torna possível. Curar tem um sentido muito amplo, não se restringindo à saúde física. A cura física é um efeito secundário no processo como um todo, sendo que a cura interior é o objetivo primário. Os sábios dos mais variados tempos, lugares e culturas nos ensinam que todos nós padecemos de uma única doença, a ignorância. Todos os tipos de sofrimentos que enfrentamos, sejam físicos, mentais, sociais, ambientais, espirituais têm origem nessa doença. Cultivar a serenidade, dizem os sábios, é o remédio para essa doença. 

Do desespero da dor à clareza do discernimento 

O desespero não tem o poder necessário para solucionar nossas dificuldades, embora ele possa nos coagir a dar respostas imediatas às pressões da vida. Respostas que, muitas vezes, redundam em outros problemas que acabam por exigir de nós mais da nossa energia já comprometida. Portanto, um meio eficaz de encontrar soluções está no cultivo deliberado de um estado de serenidade que nos habilite a ver a vida não com os olhos da dor, mas sim com os olhos do discernimento. O discernimento é a raiz de todo processo de transformação interior; e ele só é possível em uma mente envolta pela segurança da serenidade. A segurança da serenidade não é fruto do pensamento “tudo de bom vai me acontecer”, é fruto do pensamento “tudo o que importa é a paz que eu experimento agora”. 

A segurança que sentimos com o Cultivo da Serenidade se estabelece porque deixamos de resistir ao que está acontecendo conosco no momento presente. Esse é o primeiro e mais profundo movimento dessa prática de meditação, aprender a estar presente sem lutar contra tudo o que está acontecendo. Talvez não nos seja possível fazer isso com perfeição, talvez não consigamos evitar a angústia, a depressão, a ansiedade e outros frutos do medo que guardamos dentro de nós, em nosso coração. Mas, se desenvolvermos a habilidade da serenidade, ao menos no período de meditação, seremos capazes de nos manter calmos, e se nos esforçarmos diariamente nesse caminho poderemos fazer dessa habilidade uma competência e, assim, sem esforço poderemos aprender a acolher o que quer que nos aconteça buscando uma resposta baseada na tranquilidade e não no desespero. 

Todos os nossos sofrimentos têm origem em alguma forma oculta de resistência às nossas experiências. Devido ao funcionamento equivocado de nossa mente, que anseia bem-estar o tempo todo, sempre classificamos nossas experiências como boas ou ruins e isso torna nossa mente ansiosa e o nosso coração inseguro, pois interiormente sabemos que não nos é possível experimentar bem-estar o tempo todo. Quando aprendemos a cultivar a serenidade aprendemos a desenvolver o discernimento, a competência que nos auxilia a ver com sabedoria todas as nossas experiências e, devido a esse olhar sábio e luminoso, nos qualificamos a sempre tirar o melhor do que quer que nos aconteça. 

Patanjali

Patanjali , um sábio que viveu na Índia entre 200 e 400 a.C, escreveu: “Alcança-se a tranquilidade imperturbável da mente mediante o cultivo da afabilidade para com os felizes, da compaixão para com os infelizes, do prazer face ao virtuoso e da indiferença diante do mau”. Patanjali nos ensina as bases de uma mente serena. Todos nós almejamos o bem-estar sem, no entanto, compreendermos como ele é possível, quais são suas causas e condições. A felicidade começa com nossa relação com os outros seres. A vida, essa condição incomensurável e misteriosa que onde somos e que nos é surge das relações. A qualidade das nossas relações é que reflete o grau de nosso bem-estar. E a qualidade das nossas relações não pode ser medida pelo que vivemos, mas por como interpretamos o que vivemos. Portanto, é da condição da nossa mente que surge a felicidade, que nasce o bem-estar. O foco em toda prática meditativa nunca é o exercício de uma técnica, mas o desenvolvimento de uma habilidade. As técnicas são úteis e até indispensáveis no processo de transformação interior através da prática de meditação, mas são as habilidades que nos permitem o aprimoramento de nossa vida. Concentração, percepção e serenidade são habilidades ou competências que, quando desenvolvidas, nos permitem o pleno desenvolvimento da nossa mente. Sentar-se em meditação e observar a respiração é uma das técnicas mais difundidas nos cursos de meditação. Podemos aprender essa técnica de várias maneiras: com contagem respiratória, com mantras, com visualizações etc. Embora existam diferentes meios de se praticar a observação da respiração, todos esses meios são  técnicas, não habilidades. A grande importância dessas técnicas não está nelas, mas nas habilidades que através delas podemos desenvolver. Quando treinamos adequadamente uma técnica e temos perfeita compreensão de qual habilidade estamos desenvolvendo, com o tempo e a prática, nos tornamos capazes de evocar a habilidade que necessitamos sem grande esforço ou comportamento excêntricos. Portanto, é de vital importância que se compreenda que o que buscamos são as habilidades e não as técnicas

O Cultivo da Serenidade é uma técnica de meditação que nos traz como resultado final a sublime conquista de uma mente dotada da habilidade da serenidade. Através dessa habilidade você aprenderá como promover em sua mente e, portanto em sua vida, estados de clareza interior e integridade mental diante de todo e qualquer acontecimento. Clareza interior é discernimento, a habilidade de avaliar corretamente nossas experiências sem tingi-las pelo medo, pela ansiedade, pela arrogância, pelo orgulho, pelo desespero, pela vaidade e outras infinitas condições obstrutivas que flutuam constantemente em nossa mente. Integridade mental é equanimidade, a habilidade de mantermos a estabilidade de nossas emoções em meio às adversidades. 

A âncora da serenidade 

Vamos treinar duas técnicas para o Cultivo da Serenidade. Trabalhe durante uma semana cada uma delas e depois pratique com mais intensidade aquela com a qual você se identificou. Lembre-se: a finalidade de todo o processo é desenvolver a habilidade da serenidade. Quando praticadas corretamente, cada uma dessas técnicas nos auxilia a evocá- la quando dela necessitarmos sem a necessidade de muitos procedimentos. Tudo depende de treinar com firmeza e clareza de propósito a união de duas modalidades de treinamento: 

Técnica 1: Respiração – corpo – sensação 

Técnica 2:Mente – corpo – sensação 

Respiração – corpo – sensação – Nesta prática, procuramos sentir corpo e respiração como um movimento único, enquanto nossa mente se nutre da sensação de paz e desenvolve a percepção da serenidade que permeia nosso ser. Ao inspirar pensamos “A”, ao expirar pensamos “Paz”. 

Mente – corpo – sensação – Palavras de Poder (mantra): consiste em repetir mentalmente “Eu sou a Paz Infinita”, procurando ter a percepção do corpo e da sensação de Paz que o envolve. 

COMEÇANDO A PRÁTICA: 

1- Sente-se calmamente numa cadeira, numa almofada ou num banquinho de meditação. 

2- Marque um tempo de 7, 10, 15 ou 20 minutos e comprometa-se a não abandonar o exercício enquanto o tempo não terminar. 

3- Deixe que sua mão direita repouse sobre a mão esquerda com as palmas voltadas para cima; os polegares se tocam suavemente e desenham um arco. 

4- Alinhe sua coluna como se ela fosse uma pilha de moedas bem dispostas. Você terá que se esforçar para alinhar sua coluna, mas não exagere. Se forçar muito sentirá dores e incômodos e, assim, não conseguirá meditar. Feche a boca e deixe que naturalmente a língua toque um pouco acima dos dentes frontais superiores. O melhor é deixar os olhos abertos ou semicerrados, mas, se não conseguir, pode deixá-los fechados. Recolha levemente o queixo, isso ajuda na postura da coluna. Abra o peito, relaxe seus ombros, deixando os cotovelos levemente afastados do corpo. 

5- Relaxe todas as tensões desnecessárias e acalme-se no instante presente. Não se preocupe ou se apegue a nenhum som exterior. Sinta o seu corpo como um todo e relaxe todas as tensões desnecessárias. Fique dois ou três minutos sentindo o seu corpo e então estabeleça o primeiro compromisso: “vou evitar me mover durante o período de meditação”. Caso o faça, movimente-se devagar, com tranquilidade e consciência do que está fazendo. 

6- Calmamente, passe a observar, sentir ou perceber a sua mente, seus pensamentos e sensações. Não se apegue a nenhum conteúdo presente em sua mente. Se você apenas observar, sem acompanhá-lo, sua mente se acalmará. Quando observar a sua mente, preste atenção também em sua respiração. Trabalhe por dois ou três minutos nas duas coisas ao mesmo tempo, dando tanto atenção à sua mente quanto à sua respiração e, então, estabeleça o segundo compromisso: “durante o período de meditação, não vou acompanhar nenhum pensamento distrativo”. 

Os três pontos de observação 

Após estabelecer os dois compromissos, relaxe e volte sua atenção inteiramente para sua respiração. Seja apenas um expectador do processo respiratório, ou seja, não interfira com a quantidade de ar que entra e sai dos seus pulmões. Deixe que sua respiração siga seu fluxo natural. Inspire e expire sentido o ar seguir por três pontos do seu corpo. 

Ponto 1 – Sinta primeiro o ar entrando e saindo através das suas narinas; acompanhe por alguns instantes a respiração neste ponto. 

Ponto 2 – Agora, sinta a respiração na região do seu centro cardíaco. Inspire e sinta como se o ar se deslocar para essa região. Acompanhe por alguns instantes a respiração neste ponto. 

Ponto 3 – Agora, sinta a respiração na região do seu umbigo. Inspire e sinta como o ar se deslocar para essa região. Acompanhe por alguns instantes a respiração neste ponto. 

Sorriso Interior – Expresse para você mesmo um sorriso suave, leve, quase imperceptível. 

Um sorriso que lhe vem do coração e acolhe tudo o seu ser nessa prática. Sustente essa imagem. 

• Primeira Técnica: Meditação Respiratória Paz Interior (Respiração – corpo – sensação) Quando sentir que seu corpo e sua respiração começam a se unificar inclua na respiração a palavra de poder “A Paz”. Inspire pensando “A”; expire pensando “Paz”. Se perder a concentração, pense: Cultivando a Serenidade. 

• Segunda Técnica: Meditação “Eu sou a Paz Infinita” (Mente – corpo – sensação). Quando sentir que seu corpo e sua respiração começam a se unificar, inclua na respiração a palavra de poder “Eu sou a Paz Infinita”. 

Sustentando a concentração: Se surgirem pensamentos distrativos apenas repita mentalmente para si mesmo: Cultivando a Serenidade e retorne à respiração. 

BIBLIOGRAFIA: 

CIANCIOSI, John. O Caminho para a Meditação. Editora fama. São Paulo, 2002 

HARP, David. FELDMAN, Nina (Ph.D). Meditação em Três Minutos. Ed. Nova Era. Rio de 

Janeiro, 1987. 

LONG, Barry. Meditação – Um curso prático em dez lições. Editora Mandarim. São Paulo, 1995. 

MEHTA, Rohit. Yoga – A arte da integração. Editoria Teosófica, 1995. 

Sponville, André Comte. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Editora Martins Fontes, São Paulo, 1999 

TOLLE, Eckhart. O despertar de uma nova consciência. Editora Sextante. São Paulo, 2007. 

Imagens: 

Imagem 1 – fonte: http://essenciamarcial.blogspot.com.br/2010/05/o-zen-nas-artes-marciais-parte-i.html 

Imagem 2 – fonte: http://elianaequilibrio.blogspot.com.br/2011/07/meditacao-da-arvore.html 

Imagem 3 – fonte: http://www.harmonyyoga.co.uk/2012/03/19/weekend-workshop-the-bhakti-yoga-of- bhagavan-patanjali/ 


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Antonio Marcelo Campos

Escritor Budista e praticante de Yoga
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