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Segredos de Família

Eddie Junior
Read Time8 Minute, 20 Second
SEGREDOS DE FAMÍLIA – Por José Victor

Estávamos na sala, Papai e eu, enquanto mamãe mexia em alguma coisa na cozinha, parava, via o celular, continuava. Pri estava lá fora, ou talvez no quarto dela. O jornal anunciava: 

Hora da Notícia! Na tarde desta terça-feira, 17, o presidente da República sanciona projeto de lei que amplia a posse de arma em propriedade rural. Com o novo decreto, o dono de uma fazenda poderá andar armado em toda a extensão do imóvel de sua propriedade. A chamada posse rural estendida agradam entidades do agronegócio, que reclamavam que a insegurança no campo aumenta os custos da produção. Entidades ligadas aos direitos humanos e movimentos indígenas contestam, mas… 

Michele, do céu! Você ouviu isso?, perguntou Papai para mamãe. – Finalmente alguém com juízo, ele comentou, sem tirar os olhos da televisão, mas mamãe ignorava desatenta no celular. 

– O que você está vendo aí, mulher?! Eu estou falando com você! 

– Sobre?

– Uma notícia, oras. 

– Eu também estou vendo uma notícia. Escuta. Pesquisadores Especialistas em econometria do Instituto de Economia da UNEC, Universidade da Elite Campineira, defende que seria mais lucrativo para o Estado brasileiro se aumentássemos o tempo de encarceramento de menores infratores e reduzíssemos a maioridade penal. 

Imagino! Tanto moleque bandido aí fora. Bando de traficante drogado, ladrão, estuprador assassino. Tinha que ter pena de morte, logo! Bandido bom é bandido morto. O crime tem que acabar, não é possível. E se esses moleque tão assumindo a culpa dos mais velhos, foda-se eles. 

– Flávio, olha a boca! – Então mamãe me disse – Gi, vem ajudar a mamãe na cozinha, vem. Papai está assistindo TV. Vem me ajudar a fazer o almoço.

Chegando na cozinha eu perguntei: 

– Cadê a Helena?

– Filha, ela não vem fazer o almoço, talvez nem venha hoje, acho que teve um problema na família. 

– Que problema, mamãe? 

– Vou lá saber! Mas vou deixar toda a louça para ela lavar, isso eu vou. Vem, enche essa panela de água pro macarrão. 

– Por que a Pri também não vem ajudar a fazer o trabalho da empregada?

– Sua irmã está ocupada, meu bebê, mas fica aqui com a mamãe.

– Fico, sim. Vou encher a panela. 

Olhava a mamãe tentando acender o fogão, olhava para fora pela janela e lembrava. Pri e eu brincávamos muito juntas. Papai fala que nós tínhamos nossa cumplicidade. Agora ela parecia muito mais velha. Antes de eu nascer, ela foi a garotinha do Papai, hoje sou eu. Eles fazem outras brincadeiras juntos agora, na verdade coisas de adulto, como treinar com a espingarda, dirigir pelas terras da fazenda. Papai costumava dizer que seria melhor se tivesse um filho homem, porque são “coisas de homem”, mas ele não tinha um filho homem. Mas também dizia que era melhor uma filha mulher, e valente, do que um filho viado ou travecão, mas mamãe não gostava quando ele falava essas palavras feias. 

De repente ele apareceu. O moço que às vezes eu via passando perto de casa. Ele tinha uma pele mais escura e a roupa suada, estava em direção ao portão como quem está saindo das nossas terras. – Quem é mesmo esse moço, mãe? Papai deve ter ouvido minha pergunta, ou foi o trinco do portão, não sei, mas sei que deu um pulo do sofá e foi correndo atrás dele. 

Lá fora Papai gritava bravo com o moço, que respondia com olhos cansados, as mãos levantadas e a boca trêmula como quem repete várias vezes a mesma coisa. Até que o moço ficou bravo também e gritou alto com Papai, disse alguma coisa sobre estar voltando do garimpo, indo almoçar. Mamãe não percebeu quando deixei a cozinha e fui lá fora ouvir melhor. 

– Não me interessa! eu já cansei de falar que não quero mais você nas minhas terras, seu invasor de merda. 

– É o único caminho! Como vou trabalhar sem passar por aqui? Você e a sua família vem aumentando as cercas da propriedade de vocês e cobrindo território dos outros há muito tempo. Essas terras não são suas. Vocês são os invasores! 

Não entendi o que estava acontecendo, nem ouvi mais nada, porque Pri havia colado num súbito do meu lado e me puxava para dentro de casa. 

Depois disso, Papai não quis conversar com mais ninguém por um tempo. Mamãe disse que era melhor deixar ele assim, sozinho. Mas quando anoiteceu, Papai estava bem outra vez e subiu comigo para o meu quarto. Foi engraçado, a gente subiu correndo e ele quase caiu. 

– Pai, pai! Você vai ler um livro pra mim? Diz que sim… falei me jogando na cama, depois fiquei parada fazendo súplica com as mãos e carinha de dengosa, como diz mamãe. 

– Meu anjo, você já sabe ler sozinha. Eu preciso descer para conversar com a sua mãe. 

Sinto que desviei o olhar para a porta, e depois de um breve silêncio, perguntei: 

– Papai, é verdade que nós invadimos essas terras? 

– Claro que não, filha! Você ouviu a conversa dos adultos? Olha, se existiu algum índio nessas terras, eles não deviam cuidar tão bem delas como cuida a nossa família, senão estariam aqui até hoje. Esse povo pobre até de espírito é tudo vagabundo que quer se aproveitar da gente. Os cabloco, os neguinho, tudo vagabundo, querem vida fácil. Mas vamos, filha, chega de conversa. Por que você não lê esse livro aqui? – me perguntou pegando o primeiro livro que o braço alcançou, Histórias da Tia Nastácia, com aquela empregada preta e gorda na capa. 

– Não quero ler as histórias dessa negra beiçuda! – gritei rápido, rindo pro Papai.

Queria ler as Histórias de Dona Benta, sabia exatamente o lugar onde o livro estava na prateleira de livros. Olhando sua capa pensei em perguntar e acabei perguntando:

– Pai, a vovó se parecia com a Dona Benta? 

– Sim, meu anjo. Dona Inácia, quando moça, tinha um lindo cabelo longo e loiro igual a cachinhos dourados, além de um belo par de olhos azuis. Sua vó era uma mulher muito, muito linda, como a sua mãe, e como você será. Que Deus a tenha. Agora leia a historinha, tá bom? Se prepare para dormir, daqui a pouco eu vou voltar e quero ver você roncando e babando de sono – me disse sorrindo e fazendo cosquinhas em minha barriga. Foi engraçado, eu ri demais. 

Mas antes de ir, Papai se abaixou ao pé da cama e me deu beijinhos na boca fazendo carinho no meu corpo. É verdade que eu começava a perceber que não gostava quando ele fazia isso, mas Papai gostava. Quando parou, me disse:

– Meu anjo, não se esqueça que você não pode contar pra ninguém dos nossos beijinhos, certo? É o nosso segredo de pai e filha, tá bom? Você é a garotinha do Papai.

– Eu sei, Papai, respondi sorrindo. Então ele foi embora. Escutei quando trancou a porta do banheiro de cima antes de descer para conversar com a mamãe.

Enquanto isso, eu abri o livro e lia apoiando no meu colo por cima do edredom. Fiquei lendo as histórias da Dona Benta até pegar no sono. Lembro de ouvir o livro caindo no chão, mas já era tarde demais, estava praticamente capotada, como diz minha irmã. A luz do abajur deve ter ficado acesa, mas quando acordei estava apagada. Acho que Papai voltou para ver se eu estava mesmo dormindo. E eu estava mesmo, em um sono profundo. 

No dia seguinte, levantei um pouco mais cedo do que de costume. Sabia disso por um certo cansaço do corpo, um sono que não passa logo. Desci as escadas. Na sala, Papai segurava as chaves do carro, mamãe segurava a maçaneta da porta. Havia um tom um tanto sério quando Papai disse para a Pri: 

– Filha, sua mãe e eu vamos na cidade falar com o delegado. Se perguntarem, diga que nós fomos ao mercado. 

Dali uma hora mais ou menos, não tenho certeza, uma coisa perturbadora aconteceu. Eu estava brincando na sala enquanto Pri dava ordens à empregada na cozinha. De repente, tomei um susto quando a Pri correu para pegar a espingarda do Papai e atravessou voando a porta para fora de casa. Era o mesmo moço de ontem quem estava lá, agora atravessava o portão para entrar em nossas terras. Helena não quis que eu visse o que estava acontecendo e me levou para o quarto. Eu estava ficando cada vez mais nervosa, até que ouvi um barulho, como se uma árvore muito grande caísse, duas vezes, seguido de um grito de dor abafado. Comecei a chorar desesperadamente, sem entender bem o porque, mas tinha uma tensão no ar e eu fiquei com medo por mim e pela minha irmã. Depois ouvi o barulho da moto, em seguida a batida da porta e passos subindo as escadas. Pri entrou no quarto e disse apenas que estava tudo bem, mas com os olhos assustados e a respiração ofegante. Ela me abraçou e ficamos chorando como duas crianças. 

Papai e mamãe chegaram poucos minutos depois. Minha irmã desceu na frente, a empregada já estava lá embaixo. Quando eu cheguei na sala, eles estavam conversando com a Pri. Pediram para eu esperar um pouco na cozinha. Conversavam tão baixo que eu não conseguia entender nada, mas depois Papai veio falar comigo. 

– Filha, meu anjo, presta atenção. O delegado amigo do Papai e o cara que trabalha com ele vão vir aqui em casa falar com você, tá bom? Talvez outras pessoas também. Aí, presta atenção. Você vai falar isso, isso e isso. Isso, isso e isso. Isso, isso e isso. Entendeu?
* * *
No dia seguinte, 

Hora da Notícia! Nesta última quarta-feira, 18, uma menina de 11 anos atira em um homem que invadiu a fazenda de sua família. O invasor fugiu do local, mas a polícia…” 

José Victor é estudante de filosofia, militante antirracista e educador popular

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